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Mitos e verdades sobre o uso de psicotrópicos

Todos já devem ter percebido o quanto de preconceito se tem em relação aos tratamentos voltados à doença mental, principalmente quando se trata do uso de medicação para tratamento de transtornos psiquiátricos. Seja sincero e pergunte a você mesmo: Será que eu tenho algum preconceito em relação às pessoas que necessitam de tratamento para algum problema psiquiátrico?

Isso é consequência muitas vezes da desinformação sobre o tema, e, consequentemente, dos diversos mitos que o cercam. Objetivando principalmente a informação correta e de qualidade, a fim de desmistificar õ assunto, seguem abaixo alguns dos principais mitos que envolvem as medicações de uso para o tratamento de transtornos psiquiátricos ou em saúde mental:

1° MITO – Se eu começar a usar medicação, vou ficar viciado e nunca mais vou conseguir parar!
A maior parte dos psicotrópicos não possui potencial para dependência e até aqueles que são chamados de “tarja preta”, que possuem um potencial para dependência, se usados de forma correta, possuem segurança, mesmo a longo prazo
A maior parte dos transtornos psiquiátrico é crônico, ou seja, a medicação serve mais para controle dos sintomas, do que curar o paciente em questão. Transtornos como a esquizofrenia, por exemplo, possuem apenas controle com o tratamento medicamentoso, necessitando de uso contínuo e “para sempre” da medicação, já que a suspensão da mesma pode resultar em crises graves. Já outros transtornos que são mais comuns, como a depressão e a ansiedade, possuem um tratamento por período determinado, com planejamento de retirada da medicação após um tempo de tratamento – ou seja, nestes casos, que são a maioria dos pacientes, não há necessidade de uso da medicação “para sempre”.
Portanto, não é porque iniciou um tratamento, que aquele indivíduo vai usar medicação para toda a vida! A maioria dos tratamentos possui um início, meio e fim.
E, caso haja necessidade de uso de medicações com “tarja preta” (risco de dependência), este risco é baixíssimo, se usado conforme lhe foi orientado.

2° MITO – Antidepressivos a longo prazo vão danificar meu cérebro ou vão causar algum problema no meu corpo.
Os antidepressivos são amplamente e constantemente estudados e, até o momento, não temos qualquer pesquisa séria que comprove que os antidepressivos causam qualquer tipo de lesão ao cérebro ou ao organismo, desde que utilizados com acompanhamento adequado.
Recentemente aprendemos que a depressão causa um processo inflamatório cerebral, lesionando-o a cada episódio e ao longo de cada episódio. Alguns estudos têm demonstrado que o uso ao longo prazo de antidepressivos podem até prevenir quadros demenciais, como a doença de Alzheimer.

3° MITO – Se eu tomar medicação para tratamento de um transtorno psiquiátrico vou ficar “lesada”, vou ter efeitos colaterais, ou até mudar minha personalidade ou meu jeito de ser.
Todos os efeitos adversos dos antidepressivos costumam ser transitórios, desaparecendo em cerca de 10 a 15 dias após início da medicação, e geralmente são suportáveis. Caso estes efeitos colaterais sejam muito acentuados, e até atrapalharem as atividades diárias do indivíduo, nada mais justo e certo do que haver uma troca de medicação, dentro da possibilidade do transtorno mental que apresenta, sua gravidade e relação risco-benefício – ou seja, o benefício da troca sempre deve ser maior do que o risco desta.
Alguns efeitos colaterais mais incômodos, como questões relacionados ao peso e às questões sexuais geralmente resolvem após esta troca, podendo o indivíduo levar uma vida normal e saudável.

4° MITO – Canabidiol é igual maconha, causa os mesmos problemas e tem as mesmas substâncias.
O Canabidiol é uma das muitas substâncias encontradas na planta Cannabis sativa (que possui mais de 400 substâncias além do Canabidiol), não possui efeito perturbador sobre o cérebro, não causa o “barato” que a planta em uso recreativo causa, assim como não causa risco de dependência, nem risco de lesão cerebral.
É muito importante saber a procedência e a pureza desse Canabidiol, que deve conter apenas uma quantidade baixa e aceitável da substancia THC, que causa as lesões e o efeito da maconha propriamente dita.

5° MITO – Meu médico está errado ao tratar ansiedade com antidepressivos? Antipsicóticos são remédios “para louco”, e não devem ser usados para outros transtornos mentais.
Dentro da psiquiatria nenhuma medicação é específica para qualquer patologia. Ou seja, tratamos sim ansiedade com antidepressivos, já que deixamos a classe chamada de ansiolíticos apenas para casos isolados e para controle de crises. Antipsicóticos são outra classe de medicação, que em doses altas realmente tratam transtornos mais graves, como a esquizofrenia, mas que em doses mais baixas são usados para vários outros transtornos e sintomas, como o transtorno bipolar, para aumentar o efeito antidepressivo ou até para ajudar a dormir.

Como você deve ter percebido, tanto os transtornos mentais, quanto as medicações que usamos para tratá-los ainda são cercados de mitos, dificultando o acesso a um tratamento adequado e eficaz. É imprescindível que o médico tenha experiência e qualificação para este tratamento e para o manejo do indivíduo, que se torna ainda mais complexo quando sob um transtorno psiquiátrico, que afeta em muito a sua qualidade de vida, assim como aqueles que o rodeiam.

Sobre o colunista

Inscrita pelo CRM/PR 25671 e RQE 23466. É médica psiquiatra membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Atualmente exerce suas atividades na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Toledo – PR e no Hospital Bom Jesus. Realiza atendimentos em seu consultório particular e presta consultoria médica para a indústria farmacêutica Prati-Donaduzzi. Sua trajetória profissional registra trabalhos no Consórcio Intermunicipal de Saúde Costa Oeste do Paraná (Ciscopar) no ambulatório e CAPS AD III/SIM PR. Também foi servidora pública da Prefeitura de Toledo atuando no CAPS AD, CAPS II - ambulatório de saúde mental, avaliações psiquiátricas na UPA Toledo e Mini Hospital. Foi docente em saúde mental e do comportamento na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
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